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Encruado - blog do Nelson Alexandre




Escrito por Nelson Alexandre às 12h02
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EXISTÊNCIA MÍNIMA

 

 

 

          Existem divisas no braço rude da fragilidade, que inspiram a redução da capacidade de metabolizar qualquer sentimento de lealdade. Ela abre a boca e mostra uma fileira de dentes como uma correia dentada num motor composto por peças que são órgãos de criaturas bizarras. Ela sopra vanguardas sob as partículas mortas de uma lenda antiga, deitada sobre as descargas elétricas de pensamentos reprimidos. Ela levanta as saias e mostra a entrada de um mundo preso por discursos políticos e fundamentalismos relacionados a mesquinharias caseiras. Ela nunca pede o meu órgão de conexão para uni-lo à sua complexa caverna de surpresas, num casulo de nódoa eterna.

        Ela faz jorrar os sonhos nos canais de carne viva, mostrando a sua beleza em um corpo dotado de um fino veneno. Sou o velho oráculo anexado a uma juventude que me liga a uma fonte de energia libidinosa.

         Eu peço para que entre no carro. Ela dá impressão de estar desconfiada de claustrofobias autobiográficas. Pensamentos em caixas de fósforos em chamas. Finalmente partimos.

          Hora ou outra dou uma olhadela nas coxas, na boca proibida que se forma naquelas pernas, e que fazem um discurso apoteótico a favor de que eu possa deslizar as mãos sobre nelas. Eu vejo uma poesia suja, vestida com uma túnica de algodão, com papoulas cobrindo cada um dos seios.

          Há um momento em que ela silencia a minha boca de besteiras radiofônicas, pronunciando o meu nome com brasas vivas na língua. Aparenta não querer chupar, mas quer, mas não chupa.

          Língua abrasadora na glande é uma liquidação num dia em que estou duro. Eu tento a aproximação por amizade e consideração. Ataques leves com meus tentáculos de polvo faminto. Labirintos se cruzam num espaço mínimo de bolinação.

          Ela corta a cena e a existência do nosso pequeno filme, assim, abruptamente. Derruba a câmera, vergando sobre mim uma acusação de total assédio, mostrando uma cara de falsa inocência que desaparece depois daquele sorriso de chupetinha não-feita.

          “Qué pará?”

          A noite é fria, chuvosa e nervosa.

          Os dedos das minhas mãos parecem pit-bulls devoradores de mocinhas. Mas não há acordo. Apenas o velho “brigado, fulaninho!”

          O som da porta batendo e se fechando. A imagem de suas costas nuas se movimentando em direção a um horizonte de discos voadores rasgando o céu e virando uma explosão de gozo solitário.

          Nós existimos somente na zona proibida.

          Num local ermo. Com pântanos gasosos exalando cheiros conspiradores. Gases tóxicos que estimulam o poder de ejaculação da besta de três cabeças e nenhum cérebro. Há, apenas, um número de candidatura sugando pensamentos mesquinhos. Interesses que manipulam um gado novo que é o mesmo gado velho e viciado. Engolidor de ruminações estéreis e promessas de vantagens não-cumpridas.

          Nós não existimos.

          O que existe, na verdade, é uma mancha negra crescendo no hemisfério direito do cérebro, em explícito boicote ao hemisfério esquerdo.

          Quero que ambos se extingam.

          Quero pensar numa existência mínima, desvinculada de todo empolamento de artifícios literários. Quero que ela volte. Dessa vez, não quero o desenho morto e suturado de suas costas indo em direção à gênese do nosso relacionamento natimorto. Eu quero como todo homem quer uma mulher.

          Empalada nele.

Escrito por Nelson Alexandre às 11h54
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CARTA PARA ARTURO

 

 

 

 

Um lamento soa como fuga de si mesmo, e num instante, você se vê preso em um corpo que é o seu, e ao mesmo tempo, é um corpo emprestado.  Eu me vejo em você. Este corpo sente dores. E na ânsia dessa saciedade, se mostra por completo. Isso soa perigoso e, às vezes, desnecessário. Não é o caso.

Caminhamos para uma fase em que dizer “verdade de verdade” fará com que o agente dessa façanha seja implacavelmente destituído de qualquer crédito ou vitrine.

Dizer a verdade já soa como dizer que você não passa de um idiota e que é apenas uma questão de tempo para que você seja “convidado” a entrar no clube da mentira também.

Os rótulos grudarão em seu corpo emprestado, e você ficará com a fama de uma polivalência fora de moda e carregada de frases feitas e análises pueris sobre o que é a “vida” e suas pequenas periculosidades que a cercam como satélites de um planeta longínquo e esquecido.

Estou aqui, sentado, olhando a dança febril da fumaça de um king size queimando no cinzeiro, preocupado com o que vou ensinar para você daqui para frente.

A paternidade acalanta e assombra ao mesmo tempo. Fato.

Hoje resolvi teclar esse texto, tentando por meio dele, encontrar a minha voz e fazer com que você, daqui alguns anos, o leia, e que ele sirva para o seu próprio julgamento e escolha para qual caminho você trilhará.

Você se transformará num trem de cabelos claros e cacheados, que irá despertar inveja e paixão. Só que de antemão, vou alertá-lo dos perigos que sua beleza e brilhantismo poderão acarretar:

 

1)     Você poderá ter muitos “amigos” que o cercarão, mas bastará uma única vírgula fora do contexto ditado por eles, que você se tornará órfão, mesmo cercado de “olás” e “boa noite”.

 

2)     As mulheres virão, e essa é uma excelente parte. É sempre bom tratá-las bem, pois é na demonstração do sentimento puro por parte do sexo masculino é que elas farão a nomenclatura daquilo que projetam no “Ser visado” e, muitas vezes, aquilo que nos parece uma alma gêmea para o complemento de nossas lacunas, pode ser ou não uma miragem que o salvará da solidão do deserto da alma. Esse é um “toque” complexo.

 

3)     Cuide bem dos dentes.

 

4)     Tome banho mesmo quando achar que você está limpo.

 

5)     A injustiça parece ser invisível, mas lembre-se, os olhos do mundo não possuem pálpebras. Vivem 24 horas do dia abertos para uma boa ação.

 

6)     Tente ao máximo ser paciente. Paciência não é sinônimo de submissão, mas um homem inteligente sabe a hora certa de distinguir ambos. Hora de servir e ser servido.

 

7)     Amar é fácil, difícil é provar.

 

8)     Tenha uma profissão em que você sinta prazer e satisfação em desempenhá-la. O resto é frustração.

 

9)     Procure tratar bem a sua mãe.

 

10)Não esqueça o seu pai.

 

Um lamento, às vezes, é como o ronco de um motor que já rodou a distância entre a Terra e a Lua, num giro constante do maquinário monstruoso. Corpos de cobre dançam nas crateras lunares.

Um dia você imaginará as possibilidades existentes nessa faixa contínua de espaço e tempo. Isso, acho, será uma possibilidade impossível e possível ao mesmo tempo. O instrumento que torna a “verdade de verdade”, um fardo mais pesado e monótono. A carga morta de uma embarcação afundada no ribeirão Sarandi.

Tentar o caminho da imperfeição é, ao mesmo tempo, perfeição, a partir da consciência dessa problemática. É o primeiro passo para dizer “verdade de verdade”. Ainda há mentira em mim, é óbvio. Mas posso garantir que é microscópica em relação ao formão de frustrações e ousadias que já esculpi em um dia de nevasca de pó-de-serra. De cachoeiras de cerveja em córregos sujos em minhas veias.

Mas, Arturo, nenhum homem está destituído de uma outra chance. É por isso que ainda respiramos lâminas de barbear em um ar rarefeito e escuro e não morremos. Isso é uma segunda chance. A bola na trave é uma segunda chance. Como é uma segunda chance ter consciência da falta da mesma.

Nós nunca estamos sozinhos num faroeste televisivo. Há sempre uma tijolada pronta para nos deixar para baixo. Agüente a tijolada. Isso provocará curiosidade e admiração, como também, uma série sangrenta de olhares invejosos. Sempre haverá alguém num canto escuro remoendo-se: “Quem esse sujeito pensa que é?”

A gente só manda o mundo à merda, Arturo, quando não têm por quem lutar ou está sozinho nele feito um cão vagabundo. Deitado em algum lugar com uma pequena janela para ver a Lua e tentar uivar um lamento próprio, sem artifícios.

Quando existir uma terra desolada para ser reconstruída, mesmo que num poema torto, escrito sobre olhares de curiosidade e reprovação, aparecerão sonoras risadas de hienas num zênite perdido nas íris dos olhos.

Mas e daí?

O que está feito, feito está.

Essa é a minha “verdade de verdade”. Você cai e se levanta. E o respeito, meu caro, virá não pelas quantidades de idas ao solo, mas pela resistência. Pelo amor desenfreado de fazer aquilo que é (des) necessário.

A “caverna” é o lugar de parada da resistência, mas não tema o escuro. Aprenda a lidar com esse estágio de animosidade de indução a um medo escondido e descontrolado dentro de você. Todos somos pegos por ele. Mas o importante é fazer com ele não se agigante e exploda a nossa consciência em pedaços desconexos.

Digo isso, apagando a chama da vela. Para que você não me diga que é fácil dizer isso amparado pela luz, pela experiência e um certo ar de reminiscência.

Não é.

Um lamento, meu caro Arturo Batista, é a sua “não-conformidade” quando o pego no colo, quando o que você realmente queria era o chão frio e empoeirado da cozinha, para explorar um mar de curiosidades e micro-germes.

Isso é liberdade.

Um lamento, é um lamento, acho. Mas o que realmente me deixa mais esperançoso é pensar que daqui a pouco, ou a qualquer momento depois de uma noite bem dormida, eu vou poder te pegar no colo, mesmo com raios atravessando a escuridão da noite. Essa é a minha “verdade de verdade”, essa vaidade que fez com que nós déssemos a cara pro mundo. Que você nem vai se dar conta no momento. Que é o mais interessante.

Eu sou o cronista de uma Terra não muito distante da sua, uns poucos centímetros do seu “chiqueiro”, calculo.

A gente vai vasculhar os mistérios do chão sujo da cozinha. Mergulhar nesse mar de água salgada e monstros imaginários que a mamãe não quer que a gente vá.

Escrito por Nelson Alexandre às 21h48
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TRÊS POEMAS

Escrito por Nelson Alexandre às 22h37
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Escrito por Nelson Alexandre às 22h36
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O SOAR DO GONGO

 

 

 

Hoje, acredito, estou despido das últimas máscaras.

Sinto uma ventania rasgar minhas veias,

Parindo uma fábrica inteira

Com seu assovio de morte.

A cidade vai dormir mais tranqüila

Sem se preocupar com os filhos perdidos.

Mas lá em cima, onde o céu

É um imenso estômago que se queixa

Das feridas, eu acompanho o olho da imaginação

Sem endereço pra ser achado.

Eu, simplesmente, monto no meu

Desejo envenenado,

Ligando o som no volume máximo,

Porque renascer não é pra qualquer um.

É preciso paciência e todo o amor

Que você puder produzir

No coração.

Você troca o almoço pelo jantar,

Vestido a caráter,

Pra mastigar o último cadáver embalado.

Os cães de todos os quintais do mundo

Começarão a latir,

E uma música de despedida começará a tocar

Pra uma estrela louca rasgar o céu.

E quando os olhos da população

Avistarem tanta iluminação vinda da última casa

Do quarteirão,

Eles vão compreender, que lá, há uma explosão de um homem

Procurando uma trajetória e um significado.

Escrito por Nelson Alexandre às 22h24
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SOL, PÉS E PRANCHETA

 

Sinto meus pés flutuarem

E não quero rir

E nem chorar,

Apenas, acompanhar o toque

Leve de um piano

E destravar o sentimento

Do cadeado.

 

A música me leva ao encontro

De algo maior.

E as amarras do coração

Afrouxam-se

Pra que eu possa respirar

Mesmo afogado.

 

Quando os meus pés finalmente saírem do chão,

Não haverá nada que possa puxá-los pra baixo.

Nenhum fantasma sacana pra dar nó

No cadarço do meu tênis.

 

Os meus pés flutuam

Sinto o piano quebrar lá em baixo,

Caindo no meu abismo

De corpos distorcidos.

Caindo drasticamente

Como a pulsação de um velho.

 

Sinto meus pés fora do chão,

Enquanto cozinho a cabeça num sol escaldante

Que dobro e guardo no bolso.

Pra que ele não incendeie meus pés,

Mas destrua tudo o que é miúdo,

E escapa desesperadamente das minhas mãos.

Escrito por Nelson Alexandre às 22h23
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COMPLEXO: GAIOLA

 

 

 

Não há tempo pra ficar imaginando

Como a vida deve ser,

Apenas viva.

As discussões são areia de vaidade

Escapulindo entre os dedos das pessoas,

E um grão nunca é igual ao outro.

Observe as plantas pela manhã

E jogue um pouco d’água

Se for o caso.

Mas preste atenção na planta,

Não se deixe afogar

Apenas por uma bondade instantânea

Que só encharca a vida,

Viva.

Um dia,

Seus membros terão ligas

De metal fundido,

E você sempre ficará em dúvida

Se é um homem ou uma máquina.

Estará sentado, rodeado por câmeras observadoras,

Sugando a sua vida

24 horas

sem piscarem um milésimo de segundo.

Você olhará os quadros nas paredes da sala

E dançará sozinho,

Bem distante da vida.

Anêmico, fissurado, conectado a cabos

Que imitam a vida,

Você se sentirá livre,

Dentro do seu próprio complexo

De ilusões

Escrito por Nelson Alexandre às 22h21
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TRÊS ACORDES SUJOS

 

 

Por esses dias tava conversando com meu amigo de faculdade, Alexandre Gaioto, ele me indagou a respeito do romance que eu estou escrevendo. Aí ele perguntou: “Se tá me enrolando, esse livro existe mesmo?”

Sim, ele existe, mas não tá pronto. Por isso vou publicar aqui no blog, o primeiro capítulo, pra que a lenda dos acordes não fique apenas como uma fumaça fantasmagórica no ar.

Alexandre, leia no volume máximo. Abraço!

Escrito por Nelson Alexandre às 12h21
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1

 

 

 

   Eu queria tocar como Mozart, mas eu só tinha três acordes sujos... talvez, pra alguém que não tinha muitas opções em um mundo delimitado entre o Jardim Liberdade e os limites da cidade, esses acordes, eram iguaria fina, uma música anárquica dentro do meu pensamento, afinal de contas, eu não tinha muitas qualificações pra outro tipo de coisa, a não ser, aquele frenesi maluco da distorção esvaindo pelos meus dedos num grande lampejo de prazer e euforia. Quando falei pro meu pai que eu tinha metade do valor em dinheiro pra comprar uma guitarra usada, seu olhar não foi muito de alegria ou encorajamento, parecia mais o olhar de alguém que vê um caminhão carregado de gado deslanchar estrada abaixo, sem botar muita fé no motorista.

Mas depois que ele prontamente, contrariado, me concedeu a outra metade, comprei uma guitarra azul que tinha o desenho do corpo parecido com um grande rabo de peixe; um grande rabo azul celeste, que chegava cansar a vista quando refletido em direção ao sol.

Muitas pessoas observavam isso, apenas, como uma grande sujeira sonora, um aborto da concepção clássica da música, mas acho que a sujeira faz parte dessa geração. A geração do instantâneo, direcionada para a velocidade e o prazer da violência, mas não a violência como é analisada ao pé da palavra, crua, exposta como uma ferida no joelho; a violência de querer arrebentar a cabeça de alguém com uma marreta, mas sim, a violência do jeito brusco de parir aquela sonoridade cheia de energia e distorção, oriunda da criatividade primária do mundo dos sons. A sujeira era os acordes distorcidos.

Eu queria descolar tudo com os acordes sujos, namoradas, popularidade, um dinheirinho, mas o que realmente me levava pr’aquele mundo subterrâneo cheirando à fumaça de cigarro e suor, era simplesmente aquele cinturão de energia coletiva que esse mundo proporcionava. O prazer em si. Algo que nem mesmo 100 mil livros poderiam catarsear e trazer aos olhos reprovadores da censura prévia e de nossos progenitores.

Estávamos em 1993, e o meu time de futebol não andava bem das pernas. Nem eu mesmo estava me equilibrando bem nas minhas próprias pernas, mas o meu grande camarada Claudinho, tava indo buscar dois convites pra um show com várias bandas locais. Maringá estava cheirando a rock alternativo, naquele final de semana. O sol batia forte na cabeça, mas e daí, eu tava um pouco eufórico, parecia que a respiração trafegava um pouco mais do que o normal. Eu estava entrando num mundo que eu conhecia, apenas, através dos pôsteres das grandes bandas, dos sons totalmente malucos que eu ficava curtindo trancado dentro do quarto, de madrugada, imaginando aquilo tudo sem tirar os pés de lá.

O cara com quem ele tinha “descolado” os ingressos, morava num condomínio de pequenos prédios ao lado do 4º batalhão de polícia da cidade, o mesmo condomínio onde a avó paterna do Claudinho morava. O cara tinha um apelido engraçado, algo que lembrava uma criatura marinha, acho que Anêmona. Então, lá estávamos nós na porta do “Anêmona”, com alguns trocados na mão, esperando os tais ingressos. O Anêmona, era um tipo engraçado, colocou apenas metade do corpo pra fora da porta do pequeno apartamento e entregou os ingressos. Tinha uma barbinha “à la Che Guevara” e um cabelo em fase de crescimento, amarrado, que deixava sua testa esticada, dando protuberância a um rosto branco com um nariz largo, desenhando uma moldura simpática. Entregamos a grana e ele falou que ia ser bem legal, que a gente não ia se arrepender de ir ao show, mas sabe o que era mais engraçado nisso tudo, é que, mesmo eu tendo todo aquele frenesi de ficar pensando em rock, em figuras bizarras espreitando-se pra lá e pra cá, em cantos escuros, eu jamais havia entrado em um ambiente desse tipo, tudo ficava num estado de idealização comigo mesmo. À noite, quando eu deitava na minha cama e ficava completamente absorto dentro dos meus vagos pensamentos, eu tinha visões românticas desses supostos lugares escuros, desses seres que tinham entre dezessete e vinte e cinco anos e que pareciam independentes dentro de uma vida cheia de responsabilidades, lá fora, no epicentro da claridade da razão. Eu estava completamente trêmulo quando dei os primeiros passos em direção ao grande galpão de alvenaria e cimento que recebia o nome sugestivo de Contatos. Já na porta da “grande aventura”, eu estava justamente entrando em contato com algo grandiosamente minúsculo e singular, algo dentro de mim se cristalizava, algo irradiava uma luz intensa em todas as células do meu corpo. Eu desejava tocar, mas não sabia. Eu desejava cantar, mas não sabia. Eu desejava profundamente ser outra pessoa, além de mim mesmo, mas não dava, o medo da metamorfose fazia apenas com que eu ficasse parado por um instante, olhando continuamente para o palco, enquanto um guitarrista tentava afinar sua amiga de distorção, em frente a um pequeno grupo que também se aglomerava em frente a ele, esperando que sua “harpa” emitisse algum som mágico que os hipnotizasse. E tudo o que pude fazer, ao ouvir o som alto e feroz do pedal de distorção esguichando algumas notas febris, foi sentar em um banco de cimento frio e solitário, pra me flagrar num híbrido sentimento de insegurança e deslumbramento, diante daquele mundo tão estranho e maravilhoso que me era apresentado ao mesmo tempo.

Escrito por Nelson Alexandre às 12h08
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A apresentação da tarde consistia na performance de quatro bandas locais, três, eram estilo punk rock, e uma de trash metal. Olhei pro design do convite e vi os nomes das bandas, impresso neles, e pra ser bem sincero, eles sabiam externar bem aquilo que ficava preso dentro de seus corações, mesmo numa fotografia em preto-e-branco, que dava uma falsa aparência de algo sem cor ou sem vida.

Que grande roqueiro eu era, ao invés de relaxar, ficar numa boa, se soltar, como deveria ser o primeiro encontro com aquilo que era antes tão aguardado; naquele momento, eu não passava de um garoto assustado, olhando aquele bando de pessoas vestidas com aqueles visuais retirados das revistas especializadas, com a propaganda histórica fervilhando por sobre suas cabeças de Grunges, Punks, Metaleiros, Death Metals, Hippies, alternativos, numa grande rede tecida por visões caleidoscópicas dos mais diversos níveis de cultura e conhecimento. E lá estava eu, Arnaldo Batista, encolhido no meu medo interiorano, sôfrego e impotente diante da felicidade coletiva daqueles garotos de classe média, divertindo-se como um bando de malucos, numa irmandade que começava a ponderar, apenas, sobre o próximo som, pra Pongarem de uma forma mais energética do que tinham feito na música anterior, do que tinham feito no dia anterior, do que tinham feito no ano anterior, assim, retrocedendo até conseguirem nova permissão pra retornarem ao útero materno, tão apertado como os pequenos lugares onde os acordes distorcidos ecoavam, tão pequeno como a caverna maternal do rock’n roll.

Claudinho já estava lá no meio deles, envolvido com aquela anarquia cheia de juventude, curtindo pra caralho aquilo tudo, mas enquanto a primeira banda já detonava com uma verve crua e semi-afinada, eu fiquei ali no meu cantinho, fisgado pelo medo do estranho.

“Vâmo, meu!” Ele gritou pra mim.

Mas não, preferi ficar quietinho, como um voyeur absorto em divagações e devaneios. Eles “se sacudiam” “se esmurravam” “se arrebentavam”... vi um cara que devia ter uns cento e cinqüenta quilos, colocar um velho capacete na cabeça e dar investidas contra o palco de madeira como um boi maluco querendo arrebentar a cerca daquele lugar todinho. Os nossos camaradas formavam um grande laço humano em volta daquela figura gigantesca, que ia e voltava em direção ao palco e em direção ao vazio e da distorção.

E as coisas foram acontecendo, e eu, não me arriscava a sair do lugar. Não conseguia retirar o cimento bruto que insistia em acoplar os meus pés naquela viagem solitária, num olhar deslumbrado e medroso. E a todo instante eu ouvia aqueles “Vâmo, meu!” “Vâmo, meu!”, mas eu não arredava o pé. Estava congelado. Estava como o gigantesco mamute, enterrado em toneladas de gelo em algum lugar perdido de um fragmento polar; até que, insatisfeitos com o meu comportamento “covarde”, apenas senti vários braços passando pelos meus, e quando me vi, estava diante do palco, depois de ter sido arrastado como um refém daquela música, daquele movimento suado que fazia a temperatura do meu corpo aumentar de nível. Senti os “socos”, os “empurrões”, caí no chão, me levantaram, caí novamente, e mais uma vez eu estava em pé, como a serpente que sai de um pote de barro construído por um oleiro instruído em provocar uma emoção instantânea e voraz no inculto olhar daqueles que não entendiam aquilo. Que achavam que tudo aquilo era pura perda de tempo, de energia, mas tudo aquilo era um exercício onde, democraticamente, formava-se uma família de meninos ricos, de meninos pobres, meninos que não tinham onde morar, mas que pareciam entender-se através daquelas “palavras” que saiam basicamente de guitarra, baixo e bateria.

E naquela época, para mim, o romance e a poesia ainda eram um feto que não tinha sido fecundado, uma pequena semente havia sido plantada em algum lugar do meu cérebro. Plantada em alguma vereda perdida onde o grande mamute poderia libertar-se das suas toneladas de gelo, onde três acordes destruiriam o frio sopro da monotonia, como um exército marchando sobre uma hiper nuvem metafórica. Nesse instante, eu olhei pro céu e não pude vê-lo. Um enorme teto de zinco não deixou que eu visse o despontar das estrelas brilhantes que Deus havia pintado em toda a sua extensão. O Grande criador havia direcionado pra mim, o olhar de uma constelação diferente de suas obras celestiais. Ele tinha me dado o poder de compor uma constelação diferente de todas as outras, e que, por ironia, ou paixão, essa constelação não podia ser observada num movimento simples de, levantar o pescoço e olhar para cima, mas sim, observada justamente num movimento contrário. Essa constelação era formada pelos cuspes e bitucas de cigarros em meio a um chão empoeirado e gasto. Uma constelação que nascia sob a benção de semideuses de asas tosadas. A constelação Underground.

Escrito por Nelson Alexandre às 12h07
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Escrito por Nelson Alexandre às 11h48
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O CAMINHO ENTRE O NADA E COISA ALGUMA

 

 

 

 

 

Minha mente, às vezes, perde o tamanho, encolhe, ou melhor dizendo, ela abre espaço pra que algo de bom atravesse pelos dutos de pensamento. Eu acho isso muito importante, porque parece que esse achatar não é de forma alguma direcionado pro mal. É o que observo.

Já faz algum tempo que me libertei do trabalho convencional, como dizem por aí. É um fato, nada mais. Não faço dele apologia pra que seja o caminho pros seus passos, porque, às vezes, os passos de um não são os mesmos que os de outro. O do seu vizinho, por exemplo. O importante é que, às vezes, algo que não poderia dar certo acaba dando. Isso poderia ser um fato, mas não é. Isso, como dizem, é esperança. Pra alguns, sinônimo de misticismo. Pra outros, de perda de tempo. Esses (os que não perdem tempo), acho, vivem pra passarem um rolo compressor por cima da gente. Isso, inquestionavelmente, é uma opinião e também um fato. Mas eu vou andando com as mãos dentro dos bolsos como se quisesse esconder as mãos de alguém que comete um crime.

Às vezes, penso que sou um criminoso que logo estará vendendo seus serviços pra outros matadores que nunca conseguem matar e ficam encolhidos à espera de que eu jogue um pouco da sobra da carniça. Mas graças a Deus, eu não tenho mais atentado em favor da morte. Isso ainda não é um fato, mas é uma verdade, isso eu posso garantir. Não dá pra não sentir, ou melhor, não dá pra não pensar em algo que damos o nome de “culpa”. É um enorme fardo ficar comungando sozinho depois que estou com a barriga cheia. Quando a fome bate como um cobrador na “porta do estômago”, tudo fica baseado numa somatória de mastigações e saciedades que engulo com uma xícara de café preto e forte, como tradições que sobrevivem.

O crime, a meu ver, é uma desculpa, uma margem que não leva a lugar nenhum; é claro, lugar nenhum que se tenha algum proveito. Isso só tem um único proveito, um holocausto em dia de sol forte, acredito.

A margem que estou pisando no momento é a da sarjeta que leva meus pés de casa para a padaria e vice-versa. Um caminho curto na passagem dos passos, na métrica louca da velocidade dos meus olhos ocupados em observar cada centímetro dos rostos alheios. No meu caso, não olho por muito tempo. Prefiro ficar no anonimato da observação. Olhar o necessário e depois fingir que nunca estive observando. Entre o caminho do despertar do sono e o caminhar trôpego pelo asfalto da avenida, a liberdade tem pernas de inseto e o sentimento tem um coração de concreto com rachaduras enormes.

Já fazia alguns meses que eu havia esquecido da palavra “alegria”. Tinha me trancado dentro de um quarto com fantasmas sobrevoando sempre mal intencionados sobre os meus pensamentos. Não tenho adjetivos pra essa narração em estado estático, apenas a sensação de orquídea presa no corpo da árvore.

Tenho tentado como louco extrair algo de bom da cabeça. Transformar esse meu vadiar em poesia. Vendê-la a peso de ouro. Depois, me trancar em algum lugar pra contar os lucros que, no momento, não passam de sombras alegóricas sobre um lago de esperança.

Escrito por Nelson Alexandre às 11h19
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Os carros que vêm da avenida, lá em cima, na direção dos limites do município de Space City, não imaginam a sensação nostálgica que seus pneus provocam. Penso que há alguns meses atrás eu poderia me atirar na frente deles pra algum transeunte verbalizar no meio da multidão curiosa que estaria olhando meu corpo estirado no asfalto: “Ele tava andando e de repente pulou na frente de um carro”. Um caos no olhar de todos os curiosos sobre a minha carcaça. Acho que os passos que dou até chegar no portão de casa são música pro meu “marchar solitário”.

Até os cães de rua me seguem na esperança de algum afago: “É o século da carência”, digo pra eles, mas acho que não adianta muito. Em determinados casos ou em determinados estágios de carência, as palavras cumprem um papel secundário, é claro, sem extrair sua importância, pois o afago é o maior sentimento nesses momentos específicos.

Empurro o portão como um cavaleiro entrando em seu castelo, segurando uma sacola com pães e a preocupação que dispara como o cronômetro de um relógio. Sua numeração gruda no meu cérebro junto com a paranóia de estar sem emprego e sem um puto no bolso. Sento-me à mesa e a musicalidade das xícaras dança numa parceria com o untar da margarina no meio do pão. Por um momento, sinto a energia negativa saindo das solas dos meus pés e carregando o solo. Sinto que essa energia negra não perfurou nenhum dos meus órgãos, por isso, posso partir um dos pães e comer sem preocupação, a não ser, da certeza de ser um solitário numa ceia que não é santa.  

 A preocupação é como uma tira de pano amarrada bem forte na minha cabeça. Às vezes, penso que sou um rei-verme esperando ser coroado ou decapitado. Mastigo e ouço o barulho do mundo numa loucura toda particular, porque esse meu mundinho de ir dormir e depois levantar pra dormir novamente, vai me dando uma canseira de ficar enjoado e com dor de cabeça. Mas depois que o tempo da refeição se desfaz, que o prazer da deglutição se esvai e sobra o vazio da “coisa saciada”, fico com medo de não conseguir mais sentir prazer, de ficar travado com cara de doente mental, sentado numa cadeira de rodas. Acho esquisito escrever um negócio bom pra danar e depois ele simplesmente apagar da minha cabeça feito um delete clandestino, querendo brincar de nebulosa fantasiosa sobre o complexo urbano do Jardim Oásis.

“Este homem é um extraterrestre”, diria o delete.

Mas nem sempre as coisas foram desse jeito. Nem sempre eu estive a ponto de entregar os pontos e ficar mamando uma cerveja atrás da outra. Isso eu garanto. Mas de uns anos pra cá, eu fiquei meio que de luto comigo mesmo, travado entre o desejo de fazer e o sedentarismo de ficar metamorfoseado em uma carapaça de caramujo africano, pois toda manhã, parece que acordo pronto pra deitar novamente. É incrível a indisposição. È incrível como isso um dia pode virar um pedaço da eternidade depois de tanto esforço.

Mas eu calço as meias e dou uma ajeitada nos cabelos, olhando um pouco pro espelho pra ficar apavorado quando sinto que há mais um cabelo grisalho entre as minhas têmporas, e que só tenho umas poucas moedas pra abastecer o “escortão”.

Sou um vagabundo preguiçoso e desajeitado, mas desajeitado com gente que gosta de ficar especulando sobre o que a burocracia estatal anda fazendo em determinado bairro, em determinada avenida, em determinada faixa de terra que veste um longo pano verde e amarelo. Mas eu não nasci vagabundo. Acho que adquiri isso com o tempo e com uma maneira de ver a vida por um ponto de vista que não seja o do trabalho ardiloso, corrosivo e

Escrito por Nelson Alexandre às 11h17
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voltado pra uma ênfase de esmagar o próximo por uma promoção ou um cargo de chefia, rodeado de pequenas responsabilidades mesquinhas. Isso, deixei em cima de um cogumelo que brotou perto de uma mina d’água na estrada do Cunha, num dia de céu azul e pequenos duendes revelando-me onde colher os maiores e mais frescos fungos fora do mercado negro de alucinógenos. Mas até isso é uma tremenda bosta, quando já não existe mais nenhuma graça em seus efeitos.

Uma chuva torrencial me faz retornar no tempo e sentir um pouco de rancor por nunca receber as respostas das perguntas que eu fazia. Perguntas que não obtinham respostas honestas. Era alguma coisa como: “pra quê você quer saber isso, moleque?”, ou “Você sabe que a gente não gosta desse negócio de tatuagem...” em suma, eu era uma bola de tênis indo e vindo numa quadra vazia e sem a emoção de uma torcida querendo o gosto da vitória. Mas de quem é a culpa? Nós sabemos, mas deixa isso pra lá. A minha preocupação futura é encontrar um bom facão pra cortar esse matagal que insiste em crescer dentro da minha cabeça; moita atrás de moita, que vive sufocando meu estado “normal”. Um dia, acho, vou estar sentado numa poltrona com um charuto acesso na boca e vou ser repreendido com um espantoso: “Quié isso?” E na vergonha da mentira esfarrapada que eu vou inventar pra mim mesmo num ataque de fúria e autodefesa, a derrota será um troféu pra minha pessoa, repetindo sempre aquela eterna frase: “Quando será, meu Deus, que você vai largar do meu pé!?”

Sinto que o canto dos trinca-ferros enclausurados nas gaiolas como detentos numa cadeia, vão me trazendo novamente pro século 21, junto com o sol que está lá em cima, no céu, e recusa-se a ficar de mau-humor por minha causa. Solto um estrondoso peido, tão descaradamente barulhento, que a tesoura da censura não chega, de repente, pra podar o mau-cheiro. A carniça sai de mim e vem pra mim,  não gosto disso. Não mesmo. Tenho um desejo forte de sair tranqüilamente do meu quarto, e antes de ouvir aquele eterno “Onde você vai?”, de verificar se o baseado não está amassado no bolso da camisa, se as moedas estão todas dentro do bolso da bermuda e se vai sobrar um mixaria pra poder tomar uma gelada depois que o THC estiver completando as fendas labirínticas daquilo que chamo de cérebro. Isso é a gestação da poesia. Um estágio que consiste em pegar o velho carro e meter o pé fora de uma órbita caseira que me deixa desconsolado. Que me deixa com o tal “sentimento de culpa”, aguçado como um radar detectando uma invasão alienígena. Por isso, não fico bravo com o cachorrinho que mora em frente de casa e não arreda o pé da frente do portão quando vou dando marcha-à-ré com o carro. A única diferença entre nós é que eu não fico me coçando em público e muito menos latindo pros caras que passam de bicicleta na avenida. Mas acho que nossa irmandade tem a ver com uma compaixão que me deixa louco pra me tornar um Franciscano. É isso. O fato do pecado original me deixa enclausurado dentro de mim mesmo, enquanto ligo a seta pra fazer uma conversão à esquerda, vasculhando os bolsos da calça pra ver onde é que está a caixa de fósforos.

 É uma grande piada de mau gosto ficar feito um maluco olhando pros lados pra ver se ninguém está observando meu desempenho. Vou literalmente queimando o fuminho e olhando pros transeuntes que ficam apenas com o cheiro “da coisa” e uma fotografia da traseira do escortão rumando em direção metrificada pela quantidade de combustível existente dentro do tanque. Indo pra depois voltar ao mesmo ponto de partida, como um carrinho de uma montanha-russa que sobe e desce, e nunca se livra dos mesmos trilhos, numa “brincadeira” que parece nunca acabar.

Escrito por Nelson Alexandre às 11h16
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